Bonde do Museu Abílio Barreto
Sou da era dos bondes, dos postes no meio das ruas calçadas com paralepípedos, dos ficus alinhados da Afonso Pena, do latim e do canto orfeônico no ginasial, do frio no inverno e do clima ameno durante o ano, das chuvas e enxurradas fortes dos verões, do bandido Sete Dedos, das férias intermináveis, da vaquinha Itambé “mugindo” nas esquinas, da bananada da Dona Puxa, ...
Meus dias começavam e acabavam muito cedo simplesmente porque não havia o que fazer.
Eu morava na Rua Ceará, 1850, bairro dos Funcionários, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, América do Sul, Mundo. Meu universo em questão.
Todo dia eu acordava com o som do sino da igreja do vizinho colégio Sagrado Coração de Jesus e do apito do trem Vera Cruz, lá longe, na Praça da Estação. Em junho, enchia de alegria a minha vida a música da banda do Corpo de Bombeiros, que ensaiava na porta da minha casa enquanto o sol baixo da manhã penetrava pelos trevos de quatro folhas do alto das portinholas da janela de veneziana do meu quarto. Sua trajetória era denunciada pela poeira que dançava serelepe no feixe de sua luz, que projetava na parede em frente à minha cama, a imagem invertida de galhos e folhas da árvore do meu passeio.
Era mágico, bonito de se ver, tal e qual a luz do projetor do Cine Grátis da Praça Benjamim Guimarães, hoje Praça da ABC, padaria que já não existe mais.
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