Nunca gostei de estudar, de ir para o colégio, por isto custei a aprender a ler no sentido pleno da palavra e a me interessar por assuntos que não fossem relacionados com história, geografia ou desenho. Sempre “passei de ano” porque aprendi a decorar tudo na véspera das provas e a esquecer tudo logo no dia seguinte.
Comecei a ampliar o meu mundo muito a contragosto descendo acompanhado os dois quarteirões da rua Inconfidentes que me levavamda Rua Ceará até o Jardim de Infância Bueno Brandão.
Lembro-me:
- da construção que era linda, metálica, solta no meio do terreno triangular.
Aprendi a gostar de arquitetura;
- do cheiro da merendeira e do meu lanche preferido: pão com carne moída e limonada.
Aprendi a gostar de comer;
- de uma árvore e de um banco onde sentávamos em roda para lanchar e ouvir estórias da professora.
Aprendi a conviver;
- de uma grande sala onde plantamos mudas de morango cada um em seu vasinho e as vimos brotar.
Aprendi a perceber a maravilha da natureza;
- do meu desaponto quando voltei de férias e não encontrei morangos para comer nem tampouco o meu vasinho.
Aprendi que o mundo é mau;
- de um ensaio musical no pátio coberto do primeiro andar e dos pauzinhos que puseram em minhas mãos aos quais deram o nome de instrumento musical...
Assustado, eu não sabia o que fazer com eles, com os pauzinhos e com os professores da bandinha, que me provaram desde então que eu não tinha ouvido e nem jeito para música.
Era melhor nem tentar.
Obedeci.
Que dó, ré, mi, fá, sol, La, si.
Lá se foi minha chance de aprender a tocar
e a cantar.
Sinto saudade daquele prédio cuja estrutura foi presente dos reis da Bélgica, que visitaram a cidade em 1920. Desmontada, ela foi "levada" sabe-se lá para onde cedendo seu lugar para um prédio maior, sem graça, que ainda está lá, escondido atrás das grades originais e dos únicos outdoors que poluem visualmente a Avenida Paraúna, hoje, Getúlio Vargas.
Eu não sonhava nascer quando o Rei Alberto I esteve por aqui, mas sei que foi por causa dessa visita que a Praça da Liberdade – Universo em questão - foi reformada ganhando o seu traçado atual.
Antes dele, uma pseudo homenagem ao Pico do Itacolomy, ícone de Ouro Preto, estava plantada no local onde hoje existe a grande fonte na Praça. O povo a tripudiava - a homenagem - porque era feia e esquisita demais. Minha fértil imaginação, alimentada desde os tempos do Bueno Brandão, me faz crer que a tal homenagem se parecia muito com o que hoje se convencionou chamar de produção número 2 da cachorrada da cidade.
A Praça da Liberdade com seu traçado original. O monte de nº 2 está no centro do primeiro canteiro, no meio de uma poça, digo, de um lago.
A Praça da Liberdade com seu traçado de hoje. O tal monte foi substituído pela atual fonte criada para alívio do rei e do povo.
No bom sentido, é claro.
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