sexta-feira, 10 de julho de 2009

Grupo Escolar Barão do Rio Branco

Do Grupo Escolar Bueno Brandão, onde estudei pouco tempo, só me lembro dos preparativos para as comemorações de um dos dias das mães, quando tivemos que ser muito criativos e seguir à risca a vontade e as orientações da professora:


“Montar um caderno observando rigorosamente o molde e recortando com a maior precisão uma cartolina rosa e folhas em branco em forma de coração.”


Eu me lembro bem da minha obra cor de rosa, que bordei com fita de cetim também rosa que zigzaguiava pelas bordas daquele coração.


Só muito mais tarde entendi o que vinha a ser uma educação formal...


Na época eu não entendi porque minha mãe separou fotos suas e de meu pai para serem aplicadas na capa que não se pareciam com eles. Juntou também uma minha, de meus irmãos e de minha irmã e me fez levar aquilo tudo para a sala de aula.


Com elas montei a composição familiar, respeitando rigorosamente a hierarquia:

José Maria e Natália
Francisco, Roberto, Antônio, José
Maria


A foto de meu pai mostrava um homem mais jovem, garboso, todo cheio de si, com um bigode à la Clark Gable, uma roupa escura e um chapéu esquisito com um rabicho caindo meio de lado. A de minha mãe mostrava uma mulher mais jovem, linda, com um olhar lânguido que eu não reconheci. Reconheci a sua bela letra na dedicatória:

Para Cavalcanti, com todo meu afectto.
Lygia.


Minha mãe se chamava Natália, mas todos a conheciam como Lygia... Aquela da foto não era nenhuma nem outra, com certeza era uma Hayworth ou outra musa, digo, mãe de Hollywood. Aqueles não eram os pais que viviam comigo na mesma casa. Eu nunca tinha visto minha mãe tão pronta e meu pai vestido com aquela coisa tão esquisita.

A professora elogiou a beleza de um e de outro.

Eu fiquei quieto no meu canto e aprendi a gostar de receber massagens no ego.


Meus irmãos eu reconheci com facilidade, minha irmã também. Ela se destacou na ponta inferior do coração com um daqueles enormes laços que minha mãe insistia em fazer equilibrar sobre a sua cabeça.

As folhas brancas, miolo daquele coração, foram todas preenchidas com prosas e versos escritos para homenagear aquela que era a Rainha do Lar. É claro que copiei todos com o maior capricho com a minha letra mais desenhada.

No dia da entrega do presente na escola, dia das mães, todos estavam tão felizes com as suas próprias que, para meu alívio, ninguém teve tempo para comparar a minha com aquela da foto colada naquele coração cor de rosa. Felizmente meu pai não foi. Quase morri de medo de vê-lo chegar com aquela roupa... que ele teria usado no dia de sua formatura no curso de direito.
Soube disto depois e só muito mais tarde aprendi o significado da palavra vaidade
e o quanto ela não combina com um avental todo sujo de ovo.

Mamãe, mamãe, mamãe...

Vaidosas.

Mãe, irmã, professora...

Eu não entendia por que um dia tão importante como aquele, das mães e da vaidade, não era um feriado nacional?

A Bela e seu Olhar lânguido

Detalhe Art Decó da Fachada da Rua Goias, da PBH *

* Sede da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Projeto assinado pelo arquiteto Luiz Signorelli, estilo Rafaello Berti. Prédio ocupado antes de terminado em 21 de outubro de 1937 pelo prefeito Otacílio Negrão de Lima. O mesmo acontecerá no final deste ano com a Cidade Administrativa do Estado.

Fonte: http://portalpbh.pbh.gov.br/pbh/

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Professor do curso de design da Universidade FUMEC, de BH; Artista Plástico; Gestor de Cultura

Sou de Belo Horizonte, arquiteto, professor universitário e desenhista. Preparo a publicação de um livro de desenho sobre minha cidade e o universo em questão, a Praça da Liberdade. Senti a necessidade de escrever também, de contar a minha versão da história. Tenho lido bastante e muito do que eu gostaria de contar, já contaram de forma muito competente. Farei referências quando for o caso. Este blog é o meu primeiro passo digital nesta nova trajetória.